Emilio Romero

A EXPERIƊNCIA DE SI E DO MUNDO

As paixões e desejos: sua diversidade e
seus diferentes modos de expressão

               
· De promessas magníficas  também se alimentam
   os mortais.

 Talvez você já tenha vivido uma paixão? É possível que esteja experimentando na atualidade algo parecido, mas sem ainda saber bem de que se trata. Apenas experimenta uma necessidade de estar e ter por perto o objeto de seu desejo. Pode lhe resultar indelicado, demasiado egoico, dizer que deseja possuir o objeto, sobretudo se se trata da mulher ou o homem que agita seus sentidos. A paixão erótica é fácil de identificar; mas há outras paixões cujos nomes ignoramos, pois nem sempre sabemos de que se trata esse fascínio e envolvimento que nos provocam determinadas práticas e fantasias. O que nome dar a essa necessidade de difundir uma crença religiosa a ponto de entregar-se a uma cruzada da fé como se fora um dever sagrado, irrecusável, constante, inadiável? Como é possível que uma pessoa sacrifique sua vida por uma crença. Só quem acredita que sua crença é uma verdade absoluta, fora de toda dúvida pode chegar a esse extremo.  A cada momento aprendemos que tudo é relativo, dependente de determinadas condições e relações, mas quem se entrega à luta por sua fé fecha os olhos perante essa evidência. Algo similar acontece com o extremismo político.  Trata-se de uma paixão, de algo que invade e absorve o mundo do sujeito, deixando preso a um único sentido para  sua vida, levando-o a centrar-se num objetivo que o impulsiona para esse fim, sem importar-se  com  tudo o demais.
  Essas são as paixões mais visíveis –amor, política, religião. Existem outras, embora nem sempre recebam esse nome.
 O que nome dar a esse empresário que se entrega por inteiro a seus negócios, dominado pela ambição de possuir cada vez mais, de ampliar seu raio de ação, deixando tudo o demais como coisa de mínima importância? Obsessão pelo poder, outro derivado da paixão. O próprio das paixões, a diferença de uma mera obsessão, é que objeto ou objetivo que a impulsiona é visto como um bem supremo, único, digno de todos os esforços, e incluso do sacrifício. (Romero, 2001)
   Lembra-se desse juiz, homem que durante mais de trinta anos alcançou as mais altas magistraturas e que agora está preso? É o tristemente famoso juiz LDS, que entre 2000 e 2005 esteve no centro dos escândalos da corrupção deste país.  Esse homem ficou cativo, dominado por uma verdadeira compulsão de ser rico, não apenas ser um alto magistrado. Sua aparência de homem moderado, despretensioso, sensato, bom pai de família, esposo atento, provocavam de imediato simpatia e respeito em quem o tratava. Contudo, esse homem ocultava uma paixão secreta, irreprimível: ser poderoso mediante o dinheiro, que compra tudo, ou quase tudo, segundo se acredita no mercado das ilusões. Para conseguir esse objetivo deu um golpe nos cofres públicos que estremeceu este país, aliás, já bastante acostumados aos maiores escândalos no plano da delinqüência. Este homem  vivia uma paixão silenciosa. Silenciosa em termos, pois de uma ou outra maneira se revelam em atos, gestos, deslizes, que inclusive chegam a surpreender às pessoas que formam seus seres mais próximos.
   Por seu caráter envolvente, por manter o arco emocional tenso e vibrante, dando à vida uma intensidade excepcional, a procura de alguma forma passional está no itinerário da maioria das pessoas, mesmo daqueles que sentem seus perigos. Os mais tímidos, suspeitando suas ciladas, procuram não cair nessa tentação, mas a pesar de todas suas prevenções, nem sempre escapam a seu chamado.