NÃO ME ESQUEÇAS
01.Novembro.2016

Este livro não é um tratado sobre a morte, uma exploração filosófica, nem uma exploração histórica ou religiosa sobre o tema. Eu quero deixar claro para o leitor que este é um escrito sobre a morte como um último ato de nossa vida. Só vou a encarar o luto como uma questão amplamente tratada por profissionais das mais diversas correntes, aos quais o leitor pode recorrer. Vou referir-me a e le como um confronto consciente com a morte e o sofrimento.
O luto é um processo que se desencadeia depois de uma perda de qualquer tipo, mas aqui são somente tratados os processos relacionados com a morte; agora referimos o luto por uma morte já acontecida de outro a quem estávamos ligados por algum tipo de ligação emocional, mas isto não nos diz nada sobre antes da morte de quem vai morrer e nem de minha própria morte.Também se pode falar sobre o luto antecipatória, quando uma pessoa do nosso mundo emocional está doente e nós sabemos que vai morrer. Irei detalhar várias dessas alternativas.
Neste livro vou descrever a consciência da mortalidade nas diferentes etapas da vida, tentando entender os sentimentos associados a este fato, inclusive apresentarei exemplos de minha própria vida, como terapeuta e como mulher.
Para além de qualquer interpretação religiosa sobre o depois da morte, o que certamente é uma questão de fé, irei delinear vivências em vida sobre a morte, sobre esse medo, as vezes mais luminoso, brilhante… ou opaco y sinistro que nos acompanha enquanto estamos vivos.
Adverti faz tempo que o tema da morte era algo do que todos tentam fugir, inclusive eu mesma em algum momento da minha vida, mas convivemos com ela ou mesmo com sua presença ausente. Em algum momento a morte é imposta na vida das pessoas. Dizemos que se impõe porque o homem pretenderia não escolhê-la como horizonte de possibilidade. É uma realidade incontornável que, no entanto, nos impele a viver.
A morte é um aspecto da existência tão crucial para nossas vidas que não podemos ignorar como inexistente, menos ainda se formos terapeutas.
Em nenhuma faculdade de psicologia é ensinado como trabalhar estas questões com os paciente;, ensina-se infância,adolescência, vida adulta, velhice e até aqui chegamos: ousamos imaginar a velhice, mas não a morte, quando, por outro lado, não é preciso ser velho para morre;, pode-se morrer muito mais cedo, mesmo antes do nascimento.
Ensinam-nos que há em nós o instinto de morte, do qual Freud falou como a tendência destrutiva que leva à morte; contudo, tanto quanto nos psicanalicemos, podemos suprimir ou sublimar o tal instinto?Seria como dizer que não podemos morrer, graças a este psicologismo in extremis que é compartilhado por muitos terapeutas?
Alguns poderão perguntar, por que tanto esforço sobre a morte, se é apenas o último evento que ocorre no espaço de vida, seja ela vegetal, animal ou humana?A biologia nos indica que vamos morrer por por muita forca que tenha nosso instinto de vida o nosso eu.
Devido a este vácuo de conhecimento surgiu, então, nalguns profissionais, a necessidade de especializar-se em duelos e assim surgiram os tanatologistas. Embora a morte esteja intimamente ligada ao duelo, falar da morte não é como falar de tristeza. . Todos nós morremos e por perdas passamos todos, porém, se fala menos da morte que do duelo, e menos ainda dos duelos que faz o próprio moribundo.
Nossa consciência de morte não sempre está em conexão com um duelo, ainda que com ele se incrementa, incluso aparece sem estar atravessada por nenhum. Nossa consciência da morte nem sempre é semelhante a um duelo, mas se incrementa sem ser atravessada por qualquer um, como o leitor poderá ver mais para frente. Então por que não preparar psicólogos para trabalhar com pacientes a ansiedade que produz saber que somos mortais? Quero esclarecer que sou psicóloga, mas não tanatologista; acredito que todos os psicólogos não apenas os tanatologistas, devemos ser capazes de assumir o compromisso com os nossos pacientes de enfrentar a morte e não ser daqueles que a negam. Algo similar lhes ocorre aos médicos, questão que tratarei num capítulo.
Médicos e psicólogos deveríamos ter em nossa formação uma aproximação a estes temas, porque para além das especializações, quando estamos diante de um paciente estamos com toda a humanidade dele e desde nossa total e despojada humanidade, eles e nós, viveremos situações muito semelhantes e provavelmente em alguns casos até no mesmo momento de nossas vidas. E daí o que fazemos, o enviamos para outro profissional? Estimado colega, não se apresse a contestar rapidamente que sim. Se um paciente vai morrer-se e faz tempo que o está em tratamento por um motivo de consulta alheio a sua doença atual, você seria capaz de lhe dizer: ah, não, eu não me preparei para isto, vá com outro profissional. Mais adiante vamos ver diferentes alternativas sobre esta circunstância.
Espero que este livro lance alguma luz que permita facilitar o acesso a temas difíceis de nosso afazer terapêutico. E lembre que a própria pessoa do terapeuta é sua melhor “ferramenta”, ser ele mesmo vai permitir-lhe ajudar a outros. E para aqueles cujas vidas os levaram por outros rumos, desejo que este livro lhes permita ter uma visão mais consciente de suas próprias eleições, para que a cada ato seja o que quiseram viver nas circunstâncias que fossem.